quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Onde estão teus olhos?


Quero iniciar o texto com a seguinte reflexão, imagine-se na seguinte situação, meio-dia com muita fome e  tendo que encarar uma fila com uma média de 200 pessoas para se alimentar correndo o risco da comida acabar, em sensação térmica de 30°, tendo compromisso marcado dali a 40 minutos, você chega ao final da fila e em cinco minutos ela adianta cerca 1 metro. E aí, qual seria o seu pensamento nesse instante?  

O ser humano almeja torna-se adulto, como já citei em outro texto o sujeito vive em função de se tornar “alguém na vida”, cria planos e milhões de estratégias para ter “sucesso” na vida e paralelo a isso se tem gasto tempo e tempo para concluir tais funções. Isso me chama muito atenção, como existem extremos, pessoas que dedicam 10 horas ao estudo e outras que vivem no “limite”. Mas basicamente não é disso que quero tratar, hoje falarei de forma mais filosófica e até clichê para alguns sobre a grandeza que é a visão.


Sim, falei sobre a visão! O que é o ver? Para a física é a incidência da luz nas córneas e a convergência sobre a retina, mas o ver para o cego é conseguir olhar o rosto da sua mãe pela primeira vez. Daí onde entra o “ver” que quero abordar, a percepção.




Como se torna tão cotidiana as variedades das formas de perceber as ações humanas, como conseguimos interpretar, compreender e formar conceitos, hipóteses e teorias tão distintas sobre um mesmo ponto e mais instigante como essa sensibilidade pode se tornar poeira escondida pelos cantos com o passar do tempo.
Isso me faz relembrar o pensamento positivista do século XIX, sobre os estágios da vida humana, que seria necessário passar pelo teológico, metafísico e chegar ao ápice que seria o positivo racional. Sobre esse conceito, quando a sociedade chagasse a tal estágio alcançaria o “céu” em terra, o ápice da natureza humana, o extremo racionalismo progressista.
O que me encanta não é o último estágio apresentado pelo positivismo, e sim o teológico, o mais abstrato que tomo a ousadia de relacionar a uma criança. Acredito que todos já tenham conhecimento sobre a história do Pequeno Príncipe, a percepção da criança em conseguir enxergar além, o tal chapéu era uma jiboia enorme engolindo um elefante. Isso que quero destacar, pelo positivismo mesmo “menosprezando” o pensamento teológico torna-se necessário passar pelo estágio abstrato. E não discordo! Por quê?  Quando crianças imaginávamos coisas absolutamente abstratas e “impossíveis”. Mas me diga, existiria avião se o homem não sonhasse voar?



Diferentes percepções é o que move o mundo, delas surgem as perguntas e assim respostas ou mais perguntas. Nossa sociedade é baseada nisso, por exemplo, para alguns índios a menstruação como troca de pele, alguns gregos como sinal de imortalidade e toda uma cultura se era estendia a partir disso. Percepção fora necessária para formar nossos pilares, além de ser primordial para entender esses próprios pilares.
A História é basicamente isso, observar as diferentes percepções passadas, entendê-las como algo que influenciou nosso presente, e a partir disso buscar possíveis percepções para o futuro “ver o contínuo no que é descontinuo”. O que me faz voltar a correlação com a criança e com o tempo que gastamos buscando foco. Para física, o foco é o ponto convergente de raios luminosos paralelos. Esses raios luminosos são construídos ao decorrer da formação, até que se chega ao foco, mas qual luz está incidindo nossos raios? Será que nossa vida não está preocupada demais no foco e esquecendo de perceber os raios que nos tocam? A preocupação com o foco nos faz esquecer de olharmos com a percepção da criança, do “estágio teológico abstrato”, e como na física a imagem final pode ser real ou virtual. Só para ressaltar, olhamos ilusoriamente o mundo, afinal se não fosse a retina veríamos tudo de cabeça para baixo. A percepção é variável, o excitante é perceber a percepção.


Sobre a reflexão do início, já é “incomum” analisar uma fila, mas e aí, você nessa fila andando 1 metro em cinco minutos, olharia para o ponto de partida e diria “onde eu estava e olha onde já estou”, ou olharia para o ponto de chegada e diria “olha o tanto que ainda tenho que percorrer”, ou olharia a fila como mecanismo estruturalmente bem arquitetado de foco comum àquelas 200 pessoas e se caso uma única parasse de dar passos rumo ao foco, as 199 ainda estariam no mesmo lugar. Percepção, abstração, “a estrada vai além do que se vê”. “Juntos para sempre objeto e observador (...) Onde estão teus olhos? Longe deles nada existe.” 



Ps: em uma dessas madrugadas que a bruma leve das paixões que vem de dentro alcança os dedos e por eles percorrem todo os mais distintos e abstratos pensamentos!

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